08 outubro, 2005

no surprises

tenho os dedos a cheirar a café.
e o casal discreto que se passeava alegremente pelo hipermercado? e o rapaz de rosto e cabelos tão belos e pueris? eu VI. vi que o homem do casal me olhava curioso - como a concha de amor que os separa dos homens normais se quebra tão facilmente - e vi que um futuro sujo e aviltado se traçava para o rapaz - denunciara-me seu tão precoce duro olhar -

não vês que cheiro a café? afasta-te de mim
a vida é mais que junkies e bolachas molhadas em café
não? ...

há uma criança que não salta
uma criança que não corre
uma criança que não ri
uma criança que não
que não
que não
uma criança que tudo vê

há uma criança sentada nas escadas da minha casa, lê um livro e come uma sandes de fiambre, tem os cordões desapertados e os cabelos desordenados, sibila uma cançoneta de sua mãe,

deixou de ser uma criança
agora é a criança

27 setembro, 2005

drugs

Manda mais, meu boi da merda
pensas que me importo com o resto? quero lá saber de como 'tás
e não me tentes enganar com merdisses dessas, a mim não me chulas! Quero mais e do bom, sei que o tens.
foda-se para isto, 'tás a ser lento de propósito!
...

ADEUS
nunca mais me verás, percebes? vou arranjar outro que me dê o que quero, és um inutil de merda
O QUE EU QUISER!
_|_ VAI chorar para o ombro da avózinha, vai, suicida-te! VÊ SE ME IMPORTO
...

ai afinal tens aí a cena? DÁ-ME ESSA MERDA AGORA!
por favor
...

Tomar um café? tudo bem... sim amor, gosto muito de ti.

17 setembro, 2005

12 setembro, 2005

X

- Tens um X no peito.
Eu sei. Fui marcado
marcado
marcado
esfaqueado pelo preto na estação do Oriente
queria roubar-me o coração, o miserável.
o coração. a mim. ao motorista mais fodido desta cidade
Sabes como é ser tocado por Deus?
- não.
Foi isso que me aconteceu. Deus acordou-me para ver as mãos ensanguentadas do preto a tentar tirar-me a alma - aquele filho da puta ia pagá-las
saltou de espanto quando viu os meus olhos abrirem-se. no instante que se seguiu (como Deus em mim) saquei-lhe a navalha e espetei-a bem fundo nas suas goelas – vi-o morrer sufocado no próprio sangue enquanto nas lajes brancas do chão se formava, pela união do nosso lodo, um X

10 agosto, 2005

Jorge Cruz - Adriana



Mais um dia na cidade
Eu não sei nada de ti
Ainda não vi o teu milagresobre mim
Eu nem ouso sentir esperança
Estou tão longe do que é bom
Não te tenho nesta dança, neste tom

Mas se te vejo, adriana
Se te vejo, adriana
Eu quero ir, eu quero ir, eu quero ir, eu quero ir
atrás de ti...

Eu quero ver-te no meu espelho
Intimidar-te com o olhar
E
confessar-te que foste eleita para eu me dar
Vá vem dormir para os meus braços
Que eu vou mostrar-te o que é o amor
Se eu não vencer
quem vence a prova do teu rigor

Mas se te vejo, adriana
Se te vejo, adriana
Eu quero ir, eu quero ir, eu quero ir, eu quero ir
atrás de ti...


Mais um dia na cidade
E ainda não sei nada de ti
Mas é tão bom ter o teu nome aqui
aqui...
aqui...
aqui..
eu estou aqui



.
algures
forademim
.
além
dosconfinsdaminhanãoexistência
.

aqui


queres a direcção?

15 julho, 2005

O

Entre estas quatro paredes vazias, o meu corpo repousa nas frias lajes do chão. A solidão já não só habita interiormente. Como sangue, esta jorra dos meus poros formando um dique dentro do quarto, até rebentar pela janela, e os vidros gritarem pela noite fora. Chove solidão. Lá fora, ouvem-se os seus choros tristes, e cá dentro caem lágrimas de compreensão.

No tecto há um buraco que cresce a passos largos. Vejo a escuridão de um céu sem estrelas. A minha mente viaja até encontrar a Náusea. E depois o Nada.

merda de buracos que nos comem

22 junho, 2005

Tu, criança, eu

As cores que explodiam no céu já não tão negro a iluminar os seus olhos engrandecidos pelos sonhos e esperanças de criança
A noite a fechar-se sobre aquele corpo pequeno e luzidio
Os sorrisos nos rostos dos adultos, a fugirem, sempre a fugirem de si

Um anjo mudo parado no meio dos destroços boémios
O festejo cega as pessoas que gritam, dançam, giram à sua volta
Ouve-se o piano, o doce som das notas de piano, que embala
a menina-anjo
e entorpece os restantes

Eu vejo-te, eu sei quem és. Do meu sonho, do meu passado, voltas sempre todos os anos.

Ouve os filhos da noite que chamam por ti, cheira as rosas púrpuras que te oferecem, vê como te querem, vê como te desejam, famintos de pureza, buscam-te incessantemente, em cada esquina, em cada luar, não sentes?

do teu corpo, uma luz difunde-se
cenário branco

Fora tudo um sonho de criança.

06 maio, 2005

(momentos)

Deveria eu ter aceitado as tuas desculpas? - pergunto-me, enquanto ao longe o telefone toca. É o Luis a dizer que passa aqui às 9h para nos tirar uma fotografia com a sua nova câmera. Desligo o telefone, atiro-o para cima da cama, e reparo na luz que vem de lá fora - O sol demora-se a morrer. O vento que entra pela janela é morno e traz os cheiros do Verão que outrora estiveram escondidos. Assim como tu. Uma aranha agarra-se impetuosamente ao cortinado que entra pelo quarto, o vento recortando-lhe ondas de azul com reflexos doirados. Há momentos destes em que a mente pára para se deleitar com a beleza que seus olhos alcançam, os pormenores tão perto e os lá ao longe. Desperta-se para a vida, e o tempo observa impávido enquanto rasgamos as águas e respiramos pela primeira vez (ou assim o parece). Tu adormeces nas teias em que tua mente te embrulha. Mas eu não quero ver, a decadência interior perturba-me, (tarde de mais) as lágrimas caem destes olhos cansados, testemunhas da queda humana. Namorados passeiam-se ao lusco-fusco, não sabem a noite que ainda há-de vir, com seus segredos e ilusões e (como marinheiros que se deixam encantar pela voz das sereias) os seus olhos brilham - o momento crepuscular pertence-lhes.
Por vezes condeno-me por te ter incentivado para a vida. Atirei-te para os leões ferozes, pensando que teus dons apaziguadores os aquietassem. Da arena triste vieste, com a mais dolorosa das lamúrias de se ouvir: o silêncio. Debalde foram as minhas ávidas tentativas de ver - compreender - sarar as tuas feridas. Debalde as lágrimas de raiva atiradas ao mutismo com que me deixaste.
Recolho-me, então, a um círculo exterior ao teu, a um outro jardim de pensamentos e sensações, para ver a vida passar. Momentos como este que passou (a luz é quase imperceptível) repetem-se, as árvores vigilam meus passos, sabem que me exilo da realidade cujas mãos queimam inocentes - aqueles que esperam a ternura abraçar o mundo, aqueles que devem ódio ao mundo - ah, o covil onde se metem tais almas puras!
O teu carácter fleumático como foi dificil (agora impossível) de rasgar por momentos, para de seguida te esventrarem na noite, com palavras, com gestos, com meros rostos falaciosos. Como desejaria ser o teu manto de protecção e afastar toda a crueldade humana, mas o inevitável aconteceu, o mundo voltou a abandonar-te magoado ao relento, provando não haver Esperança (esta a mim também me escapa pelos dedos).
Saber dói mas não saber é-me insuportável (a noite cai).

20 abril, 2005

The Hours


(Nickole Kidman as Virginia Woolf)
"Dear Leonard,
to look life in the face...
always to look life in the face,
and to know it for what it is.
At last, to know it,
to love it for what it is,
and then...
to put it away.

Leonard...
always the years between us,
always the years...
always...the love...
always...
the hours. "

Virginia Woolf in The Hours

14 abril, 2005

sem fim


"Ah, look at all the lonely people"

As pessoas tornam-se pontos de luz que viajam a toda a velocidade, rodopio até cair e as pessoas são pontos de luz que viajam a toda a velocidade, sou uma pena que gira ao vento, e os vossos sonhos dançam em redor, a música invade os corpos e consome a sanidade,

"All the lonely people
Where do they all come from?"

quem se importa? a tarde vem morrer às janelas e os feixes cor fogo escondem o cinzento podre das pessoas que serpenteiam as ruas, velhos saem do comboio ao longe, trazem consigo os ventos da queimada, são o culminar da solidão que desgasta os ossos àqueles a quem o fastio rouba a vida, ouçam as paredes, ao crepúsculo as paredes murmuram os segredos solitários que ouviram de dia,

"All the lonely people
Where do they all belong?"

ninguém quer ouvir e a noite instala-se cá dentro, bailo até que alguém ouça, veja, sinta a maldade a escorrer pelas paredes, ruas e rios, até ao mar, voltar pelas ondas, tocar n'alguém e matar, saciar a sua sede de viangança, ódio, inveja, ganância, até não restar mais nada a não ser a solidão,

look at all the lonely people...

rodopio até cair.

08 abril, 2005

nobody will come dance with us


Pale white
Mr. Haley turned and said:
You must not cry now
Crossed the ocean
For his love
To bring her falter

And his chest beat like a wolf
To bring her home
And his chest beat like a wolf
To bring her home

Nobody will come dance
Will come dance upon our grave
Nobody will come dance
Will come dance with us

Her face's so delicate and bright
In alabaster
And his chest beat like a wolf
To bring her home
And his chest beat like a wolf
To bring her home

And if ever you try to sever
All the things we've come to know
And if you ever try to sever
All the things we know

Nobody will come dance
Will come dance upon our grave
Nobody will come dance
Will come dance with us
Shannon Wright & Yann Tiersen

24 março, 2005

onde fica essa terra de ninguém?

Uma vez alguém me disse para deixar de fugir do mundo.
Então, eu fugi.
Olho as pessoas da minha janela,
e culpo a ataraxia que se apodera insidiosamente de mim,
num sopro constante de vida.
Como elas vão e voltam, vão e voltam, vão e voltam,
gostava que não voltassem.
Nado,
deixo-me mergulhar na loucura dos homens
a água morna embala-me, envolve-me,
fode-me. a loucura.
-esconde-me
bem
fundo
na
solidão-

20 fevereiro, 2005

nascer


A voz diz-me outra vez que me tenho de levantar. É importante. O quê? Deixa-me dormir…
Vem. Para onde vamos?
Para o fim do mundo. Precisas de ver. VER.
O fim do mundo? … Eu vivo aqui bem, deste lado do vidro, não vês? Sempre que olho para o mundo dos Homens, entristeço-me, eles são indiferentes à miséria, à crueldade, à destruição lenta e gradual da sua raça. Os velhos andam pelas ruas, de olhar triste. O homem das laranjas é outra vez assaltado pelos rapazes que correm a rir, e o miúdo de nariz vermelho é gozado. A mulher corre para apanhar o autocarro, não pode perder o emprego, já ganha tão pouco… o homem de fato olha o relógio, a rotina diz-lhe que tem de passar aquela esquina às 9:05, se não o mundo acabará. Enquanto isso, do outro lado da rua, os pais deixam os seus filhos na creche a correr, e os miúdos olham para trás com um olhar perdedor, como se tivessem sido arrancados da cama a meio da noite e o frio se lhes apoderasse… Tenho frio. Que luzes são estas?
Atravessa essa frecha na parede. Do outro lado está o que precisas de ver.
Sozinha? …
...
O céu estava coberto de nuvens cinzentas e roxas, raios de pôr-do-sol trespassam os céus, mas onde estava o Sol? O céu apocalíptico estendia-se sobre um infinito campo cinzento, e no meio, erguia-se uma torre sem escada. Seres, formas difusas, pararam para me ver, mas eu não os conseguia delinear, uma sombra pairava à sua frente, espectros, almas perdidas, humanos?... algo daquela imagem insólita me fez cair e depois só vi a escuridão.
Acordo de súbito, fora só um sonho...
Aproximo-me do vidro. A vida do outro lado é tão estranha. O homem do fato olha o relógio sem vida. Uma rapariga esboceja, entorpecida pela manhã. Vejo-lhes as caras, são reais, mas não me podem ver. Não, ninguém me pode ver.

Porquê?
Não quero olhar-me ao espelho e não me ver. Não quero ser humana.
Porquê?
...
Eu sou tu. Tu és humana. VÊ.


um espelho cai-me das mãos
pedaços de mim espalham-se, partem o vidro do meu mundo
caio
.
.
.



15 janeiro, 2005

de dentro



A vida é feita de peripécias. Começa o desenrolar, atinge-se o climáx, dá-se um desfecho. [E se eu não as quiser?]
Vi memórias que não eram minhas, lágrimas derramadas pelo amor, histórias de paixão e angústia, [porque é que as recordações teimam tanto em ficar?] e não quis acordar para a minha vida. Tantos passados, tantos destinos, o ambiente degradado, o rosto imutável, a luz fria, e os olhos vítreos - uma lágrima cai -[de que te recordas agora?], são tudo descrições, tudo ilusões por não passarem de uma realidade que não me pertence. MEDO, dizem que estou consumida pelo medo. Tenho sono. Um cansaço atinge-me bem fundo. [Quando é que os sonhos acabam e a realidade começa?] Mergulhar na escuridão, deixem-me absorver a noite até não existirem mais estrelas. Há um vento cortante, queima-me os olhos, olhos cansados de ver os homens, as mulheres, as crianças, os velhos, [o que querem de mim?] a noite perde o seu fulgor novamente...
Ele fora-se para sempre, permanecendo apenas a sua caixa de recordações, no lugar onde se tinha esquecido de amar. [Ou fora de ser feliz?]
"As recordações são rastos de lágrimas"